9 de maio de 2017

Das coisas mais bonitas que já vi

Uma beleza inexplicável. Tudo surge dali, mas não é ali que termina.
Os olhos se enchem de água sem tristeza alguma.
O peito expira longamente a força contida do ar.
A garganta pede passagem como se precisasse abrir-se ao meio.

Todos os sentidos se banham de beleza áurea e, ainda assim, não há necessidade alguma de posse.
Não é algo que é meu e precise morar em um pote. Isso seria egoísmo. E egoísmo não tem lá muita utilidade.

Um sentimento de afeto tão puro e unilateral que a admiração por si só já sacia.
A felicidade reside na continuidade e não no tato das mãos. Sentir o perfume de perto pouco importa se o perfume durar para sempre. E assim nem um pingo de egoísmo mancharia tão suave beleza.

Não é "deixar ir para que um dia volte". A gente nem percebe, mas sempre acaba personalizando tudo.

A admiração e a beleza podem andar de mãos dadas sem riscar a nossa própria face. A gente é que numera e insiste em competir. Mas nada disso de fato importa.

A beleza não nos acerta como soco. Ela nos preenche como ar. A gente pode até achar que a encontramos fora, no outro. Mas nunca saberíamos reconhecê-la se já não a tivéssemos conosco.

Birth of Venus (detalhe) 1486 -  Sandro Botticelli

1 de maio de 2017

O que tinha antes de tudo isso

"Qual a diferença que fazemos no mundo? Por que será que estamos aqui? Será que temos um destino maior que nos será revelado em breve ou a nossa simples existência já modifica o todo? Não sei bem ao certo o que pensar. Quando eu tinha meus 12 anos achava que tudo que fosse pra ser, seria, mesmo sem eu desejar. Achava que o amor viria até mim sem eu precisar me mexer. Mas pouco tempo atrás eu percebi que o amor vem quando estamos desarmados, quando nos abrimos e sentimos um pequeno medo ao contar sobre a nossa vida. São nesses momentos que acontecem as coisas mais importantes. Talvez o problema maior esteja no tempo. Porque assim como o tempo mudou meus conceitos, muda o conceito e o sentimento de todo mundo. E por mais que o tempo passe, e por mais que as mudanças aconteçam, sempre sobram vestígios de como era antes."

O lado bom de ter uma memória "ruim", porém ser acumuladora é encontrar pistas que eu deixei pra trás e não me lembrava mais. Esse texto que escrevi há quase 10 anos (21/11/2008) achei em um caderno no meio da minha bagunça e talvez tenha sido a fagulha que iniciou todo o processo em que me vejo inserida hoje.

Sempre foi uma necessidade quase que gritante encontrar referências em coisas/pessoas em que eu pudesse me identificar ou que me indicassem quem realmente sou. Esse "grito" foi lentamente suavizando à medida que eu comecei a por tudo em palavras e, finalmente, comecei a me "ler". Primeiro aqui, no blog em 2009. E depois, beeem depois, comecei a falar por mim mesma. É estranho imaginar alguém muda durante tantos anos, mas dizer coisas com a boca não significa de fato "se expressar". E essa última tarefa é a que venho aprendendo um pouco mais.

Hoje o "grito" virou um sussurro e a minha própria voz vem ganhando mais volume. Não é uma tarefa fácil: eu não nasci pronta e estou tentando me construir com toda a força que possuo, lutando contra aquilo que já haviam, inclusive, construído por mim. Também não é uma tarefa rápida: os textos que escrevi estão datados pra que eu possa me lembrar justamente disso todos os dias. Mas é uma tarefa que vem preenchendo os meus dias, cada um deles, com algo a buscar.

Eu ainda não tenho nenhuma das respostas em que buscava quando tinha 18 anos. Mas, intuitivamente, sei que irei olhar pra trás algum dia e conseguir juntar todos os vestígios.

Memory (1948) - Rene Magritte

30 de janeiro de 2017

A dor de não aceitar a continuidade

O fato de o ser humano muitas vezes se sentir superior ou alheio à natureza ofusca um entendimento natural da própria vida.

Nos momentos em que o coração está machucado e a mente cheia de dúvidas, se nega a perceber que esse é um estado temporário, que "a tempestade sempre passa". E se surpreende quando isso de fato acontece. Da mesma forma, a felicidade não é duradoura ou contínua e é frustrante esperar que ela realmente seja. Por mais que tudo esteja aparentemente em ordem consigo, há um mundo inteiro se movendo e imprimindo as maiores dores e alegrias diariamente.

A flor de um ipê aberta no auge do verão talvez não saiba que vai cair e morrer. Aparentemente, no inverno ela desaparece e não volta mais. Mas, nós aqui de fora, sabemos que não é bem assim. A flor se esconde no chão, mas irá novamente brotar na próxima estação.

O que seria da flor se ela não quisesse mais ser flor? Se não quisesse mais continuar? Há uma dor imensa na recusa de ser. Não controlamos os ciclos e nos afetamos por eles, sem saber que também somos flor aberta e exuberante, como também somos semente introspectiva debaixo da terra.

O declínio de nossos ciclos pode ser visível ou latente, mas sempre está ali de várias formas: o fim de um relacionamento, a saída de um emprego, a indecisão de caminhos com um diploma na mão, a morte de alguém que amamos.

Talvez a compreensão do valor dos declínios não seja possível à nossa mente hoje, nesse momento em que vivemos no mundo. Mas a natureza parece não falhar... e sempre nos entrega uma nova primavera.

Em um mundo de frio emocional e inverno interior, talvez não tenhamos conhecido a primavera ainda. Mas que possamos sempre contar com a sua chegada.

Mesmo que seja só dentro da gente.